6. GERAL 5.9.12

1. GENTE
2. MEDICINA  COMER BEM, E NO MENOS
3. AMBIENTE  UM LUGAR VERDE PARA MORAR
4. SADE  NA PRPRIA CARNE
5. VIDA DIGITAL  POPULARIDADE.COM
6. MEMRIA  O PRIMEIRO A PISAR NA LUA
7. PERFIL  O SENHOR DAS SOMBRAS
8. DEMOGRAFIA  QUERIDO, VAMOS TER MAIS UM?
9. ESPORTE  IGUAIS AT NOS PECADOS

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Alessandra Medina, Dolores Orosco, Mariana Amaro e Marlia Leoni.

ALGUM NO RECONHECE A TESSLIA?
Candidatos a Darkson no faltaro: a atriz DBORA NASCIMENTO acaba de se separar. No se espera uma reprise do que aconteceu na primeira vez em que ela teve um grande desgosto amoroso, quando engordou 20 quilos e encerrou a carreira de modelo no exterior. Por causa disso, voltou ao Brasil, emagreceu e mudou de profisso, deciso que hoje enche de orgulho o pai delegado. Se no me reconhecem na rua, ele diz: Ela  a Tesslia, da novela, conta Dbora. Corredora disciplinada, ela tem estrutura para acomodar os quadris generosos nas nanossaias da personagem, compradas no Brs e em Madureira. J , Darkson?  maldade. Ela  minha parceira, responde o ator Jos Loreto.

MISS SEM SIMPATIA
A coroa est pesando para a nova miss Rio de Janeiro, RAYANNE MORAIS. Quando foi anunciada a sua vitria, jogaram latas e vasilhas com salada de frutas nela, diz David Brazil, um dos jurados. A presena de David, alis, foi uma das razes da revolta. Ele  amigo do cantor Latino, que namora a Rayanne, espeta Luiza Lorellay, miss Cachoeiras de Macacu, que relata a existncia de um abaixo-assinado na internet para pedir a anulao do concurso. Rayanne, arrasada, diz que se sacrificou para estar na disputa. Eu ia casar com Latino em 12 do 12 de 2012. Adiei a festa porque miss tem de ser solteira o reinado inteiro.

AGORA, COM DOUTORADO EM PERCUSSO
Alguns se aperfeioam na London School of Economics, outros na London School of Samba.  este o caso evidente da relaes-pblicas KARLA-JAYNE THOMAS, 27, inglesa de me jamaicana e pai portugus. Apaixonada pelo Brasil, estudou a lngua do pai e fez o curso de rebolado na tal escola de dana de Londres. Atingiu um nvel equivalente ao mestrado, to avanado que no ano passado saiu como rainha de bateria da School of Samba no carnaval do bairro de Notting Hill, e foi apelidada de Karlinha Caipi Rainha porque eu danava e bebia caipirinha. Neste ano, sob uma chuva torrencial  o que explica essa minha cara feia , ela conseguiu o doutorado: Tive aulas de msica e, agora, sou a Karlinha do Tamborim.

CAD AQUELAS COXAS?
A primeirssima providncia de VIVIANE ARAJO depois de 93 dias de isolamento em um reality show do qual saiu campe foi dar um trato geral. Minhas unhas estavam um horror e o cabelo, pior ainda. Fiz hidratao, mas s vou refazer o megahair em quinze dias, quando acabarem meus compromissos e eu voltar para casa, diz.  a tambm que vai se dedicar a recuperar as hiperblicas medidas que o confinamento encolheu  perdeu 4 quilos (est com 62) e, pior pesadelo para uma rainha de bateria, os monumentais 58 centmetros de coxa secaram para meros 53. Tive muito stress e parei de malhar, para me poupar, conta Viviane, que faz assim a analise semntica da vitria: Fui humilde, fui eu mesma.

MIL E UMA OPINIES
 preciso muita coragem para olhar bem para a cmera e impiedosamente, mas com bons argumentos, devastar uma instituio como o Carnaval. Mas foi justamente a opinio forte que levou a paraibana RACHEL SHEHERAZADE de um programa regional para o posto de ncora do jornal SBT Brasil. Silvio Santos se encantou com o tom crtico e o nome diferente de Sheherazade.

De onde vem esse nome? 
De uma av, que adora o livro As Mil e Uma Noites. Sofri muito na escola por causa dele. Quando virei jornalista, assinava Rachel S. Barbosa. Foi o SBT que me pediu que assumisse o Sheherazade. Acabei gostando.

Silvio Santos ajudou? 
Ele me deu um abrao e me mandou ir ao Jassa mudar o cabelo. Eu era loira. Antes que me pergunte, o Silvio no tem cabelo acaju.  castanho. 

Que comentrio seu gerou mais polmica? 
Quando eu falei do Jos Sarney. Tambm fizeram barulho minha crtica ao sistema de cotas raciais  uma enganao para compensar a deficincia do nosso ensino  e meu posicionamento sobre a questo das drogas. Disse que o viciado sustenta seu vcio matando, roubando e sequestrando. 

Qual sua posio poltica? 
Votei no Lula duas vezes, mas me decepcionei. Hoje sou mais alinhada com polticos conservadores e de direita. 

Ningum se salva? 
FHC. Ele  a favor da descriminalizao das drogas, mas tudo bem. Poltico no tem de falar 100% do que acho certo. O importante  a herana boa.


2. MEDICINA  COMER BEM, E NO MENOS
Uma dieta saudvel e equilibrada pode ter o mesmo efeito que a restrio calrica no prolongamento da vida.

     Desde a dcada de 30, pesquisas com animais, de moscas drosfilas a macacos, estabeleceram um dos principais dogmas da medicina do envelhecimento: vive mais e melhor quem come menos. Na semana passada, um estudo do Instituto Americano de Envelhecimento (NIA, na sigla em ingls) contestou esse conceito ao mostrar que uma dieta equilibrada, com fontes variadas de carboidratos, protenas e gorduras, tem o mesmo impacto na longevidade que uma alimentao restritiva. Ou seja, no  preciso passar fome para prolongar a vida. Basta comer direito.
     O levantamento acompanhou 121 macacos da espcie Rhesus durante 25 anos. Uma parte dos primatas foi alimentada com o correspondente a 2200 calorias dirias, compostas de substncias antioxidantes, como as encontradas nos leos de peixe, frutas e cereais integrais. As demais cobaias receberam o mesmo tipo de alimentao, mas 30% menos de calorias. Com essa quantidade de comida, os macacos submetidos  restrio calrica chegaram ao equivalente entre os seres humanos a um homem de 1,82 metro e peso entre 54 e 60 quilos apenas. Ao contrrio do esperado, a taxa de mortalidade foi a mesma entre os dois grupos de animais.
     A pesquisa que consolidara a crena nos benefcios da restrio alimentar como estratgia para prolongar a vida  de 2009 e foi patrocinada pelo Centro Nacional de Pesquisa com Primatas de Wisconsin, nos EUA. Dois grupos de macacos (tambm Rhesus) foram analisados durante vinte anos. Entre os animais alimentados com poucas calorias, o ndice de morte foi de 13%. Entre as cobaias deixadas livres para comer, elas no s morreram mais (37%) como chegaram ao fim da vida com diabetes, cncer e doenas cardacas, males associados ao envelhecimento.
     A disparidade entre os resultados divulgados na semana passada e os da Universidade de Wisconsin explica-se pela diferena da metodologia utilizada nas duas pesquisas. A dieta preconizada pelos pesquisadores do NIA era mais saudvel. A quantidade de acar na alimentao das cobaias de Wisconsin era, por exemplo, sete vezes maior. No cabe definir qual  o estudo mais benfeito, diz o endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento. Mas devemos admitir que uma dieta equilibrada tem o mesmo efeito sobre a longevidade que a restrio calrica.

O QUE SE DIZIA ANTES
A reduo de 30% das calorias dirias prolongaria a vida...
...diminuindo a taxa de mortalidade de 37% para 13% (entre os macacos estudados pelos pesquisadores da Universidade de Winconsin, nos Estados Unidos)

O QUE SE DIZ HOJE
Os benefcios da restrio calrica podem ser obtidos com uma dieta equilibrada, com o equivalente a 2200 calorias dirias, distribudas da seguinte forma:
Carboidratos  arroz, pes e massa entre outros alimentos: 70%
Protenas  carnes em geral, leite e queijos, entre outros: 15%
Gordura  azeite, leo e manteiga, entre outros: 15%

NATALIA CUMINALE


3. AMBIENTE  UM LUGAR VERDE PARA MORAR
Depois dos prdios de escritrios, agora  a vez de os imveis residenciais buscarem o selo de sustentabilidade. Custa mais caro constru-los, mas viver neles sai mais barato.
GUSTAVO SIMON

     O empresrio Marco Antonio Bozouiari e sua esposa, Karina, publicitria, pesquisaram um punhado de imveis antes de decidir onde seria sua casa nova. A escolha recaiu sobre um apartamento de duas sutes e 120 metros quadrados,  poca ainda na planta, no edifcio Prncipe de Greenfield, no bairro de MontSerrat, prximo ao centro de Porto Alegre. Um dos motivos que pesaram na deciso do casal se deve ao fato de o prdio,. concludo no ano passado, ter sido um dos primeiros projetos residenciais do pas a buscar a certificao de construo sustentvel. O edifcio recebeu o selo Leed, concedido pela representao brasileira da ONG americana Green Building Council. O selo Leed  respeitado em todo o mundo como uma garantia de que a construo tem uma srie de caractersticas que a tornam amiga do planeta. Quando vimos a possibilidade de morar em um lugar que abraasse o conceito de sustentabilidade, achamos que tinha tudo a ver com o que buscvamos, diz Bozouian. O empresrio no foi o nico a se entusiasmar pela ideia de morar em um prdio verde. Segundo a construtora Joal Teitelbaum, os apartamentos do Prncipe de Greenfield foram vendidos a um ritmo seis vezes mais rpido que o observado em prdios similares em Porto Alegre que no possuem a certificao de sustentvel.
     No Brasil, os edifcios comerciais h tempos buscam os chamados selos verdes. O mercado de construes sustentveis j est consolidado no pas, o quarto no mundo em nmero de prdios certificados ou em processo de certificao  s perde para os Estados Unidos, a China e os Emirados rabes Unidos. No ano passado, havia 434 edifcios certificados ou com pedido de certificao no Green Building Council Brasil, um aumento de 83% em relao a 2010. Ao todo, o pas tem 599 prdios que possuem os selos Leed e Aqua, este concedido pela Fundao Vanzolini, ligada  Escola Politcnica da Universidade de So Paulo. A novidade  que os edifcios residenciais tm contribudo para esse aumento. No passado recente, muitos conceitos de sustentabilidade vazios ou enganosos foram usados no mercado imobilirio, comenta o engenheiro Luiz Henrique Ferreira, diretor da Inovatech, empresa que presta consultoria para construtoras obterem a certificao ambiental. Hoje, a demanda  por mais transparncia tambm no setor residencial, ele completa.
     Dos 556 edifcios certificados ou em processo de certificao pelo Green Building Council Brasil, dezoito so residenciais  catorze em So Paulo. A Fundao Vanzolini avaliza 43 empreendimentos, dos quais sete so residenciais. No incio de agosto, a construtora Even anunciou um acordo com a fundao pelo qual todos os empreendimentos residenciais lanados na regio metropolitana de So Paulo (mercado que representa 80% dos negcios da empresa) sero concebidos e construdos de acordo com os critrios de certificao Aqua. Em pesquisas que fizemos com nossos clientes, constatamos que 60% deles do valor ao quesito sustentabilidade, tanto na hora da aquisio quanto depois, no dia a dia, diz Carlos Terepins, presidente da construtora. Em setembro, o Green Building Council Brasil vai lanar no pas um selo de certificao para casas residenciais. As exigncias para obt-lo sero similares quelas usadas nos edifcios e seguiro o modelo adotado em pases como Japo, Inglaterra, Arbia Saudita e Estados Unidos  a associao j certificou 22.700 casas desde 2008.
     Um prdio com as caractersticas necessrias para a certificao sustentvel sai mais caro para ser construdo do que um edifcio convencional. So necessrios dois sistemas hidrulicos separados  um para a gua que vem da rua e outro para a gua de reso, que capta, armazena e trata a gua da chuva, utilizada apenas na limpeza e nos vasos sanitrios. Elevadores de maior eficincia energtica custam 25% a mais do que os convencionais. Os vidros duplos, que promovem isolamento trmico a fim de limitar o uso de ar condicionado, tambm so mais caros. Na ponta do lpis, dependendo da dimenso das medidas adotadas, a construo do prdio encarece entre 1,5% e 5%. Tambm por isso os apartamentos sofrem uma valorizao no preo de venda e aluguel da ordem de 15%.
     Em contrapartida, na outra ponta da equao, a economia proporcionada pelas medidas sustentveis reduz significativamente os gastos dos moradores com manuteno. A medio individualizada de gua acaba por fazer com que os condminos diminuam seu consumo. O mesmo ocorre com a energia eltrica, j que cada apartamento tem um mostrador que indica a evoluo de seu consumo no ms. Ao final, o prdio costuma usar 30% menos energia e 50% menos gua em relao a um edifcio convencional. Em consequncia, o valor do condomnio fica, em mdia, 30% menor. Devido aos custos de manuteno mais baixos, no caso dos prdios comerciais, h um grande nmero de empresas, principalmente multinacionais, para quem a certificao  mandatria, diz Fabio Villas Bas, diretor tcnico da incorporadora Tecnisa. Segundo as construtoras, a tendncia  que os edifcios residenciais sustentveis tambm se multipliquem. A prxima cidade do pas em que eles devem florescer  o Rio de Janeiro, onde a prefeitura, a exemplo de programas existentes em Nova York e Londres, lanou em junho o selo Qualiverde, que concede descontos que podem chegar a 50% em impostos sobre habitao a imveis que adotem medidas verdes.

REQUISITOS PARA TER O CERTIFICADO
Para receber o selo sustentvel, um prdio residencial precisa obedecer a trs critrios principais. As estimativas tm por base um edifcio com oitenta apartamentos e 320 moradores.

TRATAMENTO DE LIXO
O que  necessrio: Tcnicas de compostagem para converter lixo orgnico em adubo
Quanto custa (em reais): 16.000
Economia: 29 toneladas de lixo por ano (o descarte dirio de quatro bairros populosos)

ECONOMIA DE ENERGIA
O que  necessrio: 85 painis solares para aquecer a gua dos apartamentos e gerar parte da eletricidade usada nas reas comuns
Quanto custa (em reais): 30.000
Economia: 15% no consumo individual e 20% no coletivo
O que  necessrio: Medidor do consumo de energia em tempo real
Quanto custa (em reais): 280 cada um
Economia: 20% no consumo
O que  necessrio: Elevadores com motores de alta eficincia
Quanto custa (em reais): 70.000 cada um
Economia: 20% no gasto de energia, o equivalente ao consumo anual de uma famlia de quatro pessoas


ECONOMIA DE GUA
O que  necessrio: Equipamento para captar e filtrar a gua da chuva
Quanto custa (em reais): 30.000
Economia: 11,7 milhes de litros de gua por ano, o equivalente ao consumo de 40 famlias
O que  necessrio: Medidores individuais de gua
Quanto custa (em reais): 250 cada um
Economia: 7 milhes de litros de gua por ano (o consumo dirio do centro do Rio de Janeiro)

Se todos os prdios residenciais do Brasil fossem verdes,...
...a energia economizada equivaleria a cinco meses de produo da Usina de Itaipu...
...e a gua economizada seria suficiente para abastecer por um ano todas as residncias da cidade de So Paulo.


4. SADE  NA PRPRIA CARNE
Diante de uma angstia intensa, adolescentes se cortam escondidas em busca de uma forma de amenizar o sofrimento.  A internet ajudou a revelar o alcance do mal.
NATHLIA BUTTI

     Perturbador do comeo ao fim, o filme Aos Treze, da diretora Catherine Hardwicke, tem alguns de seus momentos mais pungentes ao mostrar um hbito desconcertante de Tracy, a adolescente de 13 anos de idade vivida por Evan Rachel Wood: no auge do desespero, ela se tranca no banheiro, pega uma lmina de barbear e abre sulcos nos prprios braos  no com o intuito de se matar, mas de aliviar a angstia. No  s uma cena de filme projetada para chocar. No mundo fora da tela, onde, quase dez anos depois de lanado, Aos Treze permanece firme na lista de favoritos nessa faixa etria, muitas adolescentes, atormentadas por uma forma extremada da angstia indefinvel, recorrem  automutilao como uma maneira desesperada de amenizar o sofrimento. Isso mesmo: por paradoxal que parea, para essas meninas o gesto de cortar o prprio corpo ajuda a aliviar a dor emocional. O ato  escondido, disfarado, encoberto por roupas e bijuterias. Pode levar anos at que algum da famlia perceba, e muitas vezes ningum percebe. Pouco divulgada e pouco estudada durante muito tempo, a automutilao est saindo das sombras por obra principalmente da fora reveladora de todos os segredos, a internet. Na rede, artistas conhecidas  mais recentemente a americana Demi Lovato, ela prpria recm-sada da adolescncia  tm se encarregado de levantar o manto que encobre o assunto, contando a prpria e dolorida experincia (veja o quadro na pgina ao lado). Tambm na rede, comunidades se formam em torno do tema, algumas para apoiar as meninas que pedem ajuda, outras, ao contrrio, para trocar ideias sobre novas maneiras de se machucar. Nos ltimos anos, aumentou muito a incidncia de jovens que se mutilam. Eu recebo ao menos dois e-mails por semana com pedidos de ajuda, de adolescentes desesperadas ou de pais que no sabem como agir, diz a psiquiatra Jackeline Giusti, especialista nesse tipo de distrbio.
     Nos manuais da psiquiatria, a automutilao aparece como sintoma de outras patologias, como a depresso e o transtorno de personalidade borderline. Mas o problema atingiu tal proporo nos ltimos anos que a Associao Psiquitrica Americana avalia uma proposta de defini-lo como uma patologia individual na prxima reviso da bblia do setor, o Manual Diagnstico e Estatstico de Transtornos Mentais, prevista para 2013. No se trata de mera formalidade: ser categorizada como um transtorno por si s, como aconteceu com a anorexia nervosa, em 1968, e a bulimia, em 1980 (ambas anteriormente tratadas como sintomas de outros males), significa estabelecer definies mais rigorosas, tratamentos mais adequados e, para as vtimas, retirar o problema do canto escuro em que sempre esteve. Precisamos definir critrios e elaborar uma noo exata sobre o mal, excluindo as mutilaes triviais e tambm as que tm inteno suicida, que compem outro quadro patolgico, explica a psiquiatra Jackeline. Entre os critrios sugeridos para caracterizar o transtorno esto o nmero de vezes em que acontece (no mnimo, cinco), o objetivo que precede o ato (a busca de um sentimento positivo por quem  acometido de sentimentos negativos frequentes) e o modo como a leso  feita (superficial).
     Embora se manifeste tambm em outras fases da vida e seja igualmente praticada por homens, a automutilao  um distrbio tpico de adolescentes, sobretudo meninas. Os adolescentes vivem dramas pessoais de maneira muito intensa. Como o controle sobre o prprio corpo  um dos primeiros poderes plenos que conquistam, isso vira um meio para que o transtorno se manifeste. E as meninas, que amadurecem mais rpido, so ainda mais suscetveis a ele, diz o psiquiatra Luiz Alberto Py. Nesse quadro se encaixa a paulistana A.B. Ela tem 14 anos, mora com os pais e a irm,  boa aluna, tem muitas amigas, gosta de comprar roupas e de se cuidar. Mas relata que, com frequncia, mergulha em um estado de angstia. Nessa hora, tranca-se no banheiro e se corta at a tristeza passar. Um garoto de quem eu gostava se interessou por outra menina, e eu me machuquei com unhadas. Depois, sempre que me sentia inferior, usava lminas, facas e estiletes para aliviar a sensao ruim. No consegui mais parar, afirma a menina, que por dois anos escondeu cicatrizes nos pulsos e tornozelos com pulseiras, blusas de manga comprida e meias grossas. A me descobriu o drama da filha quando encontrou em seu computador um arquivo de fotos que ela tirava de si mesma depois de se cortar. A.B. est em tratamento, mas ainda tem recadas: sem objetos cortantes ao alcance, ela se morde, se belisca e puxa os cabelos.
     Cortar-se, nesse contexto, no tem nada a ver com tentativa de suicdio ou gesto extremado para chamar ateno. Tampouco se relaciona com autopunio: quem se corta raramente sente dor. O stress emocional libera no organismo delas a endorfina, substncia responsvel por anestesiar o corpo e proporcionar sensao de bem-estar, explica Jackeline. O que leva, ento, a menina a se machucar deliberadamente? Trata-se inicialmente de um pedido silencioso de socorro perante um problema. Mas, com o tempo, a pessoa pode passar a se ferir sem pretexto, simplesmente para se sentir bem, diz a psicloga Anna Karla Garreto, do Amiti (Ambulatrio Integrado dos Transtornos do Impulso), do Hospital das Clnicas da Universidade de So Paulo. A estudante J.T., de 18 anos, conta que tinha apenas 9 quando o av, a quem era muito apegada, morreu. Ela descobriu que, para ela, arranhar a pele at criar feridas era uma forma de amenizar a saudade. Outras perdas ao longo da adolescncia intensificaram a automutilao: com tesoura, cortava coxas, selos e virilha, reas facilmente escondidas sob a roupa. Numa crise aos 15 anos, desmaiou depois de se cortar; a me, enfim, deu-se conta do problema e a ajudou a buscar tratamento. Os cortes me traziam paz. Mas ao mesmo tempo me faziam muito mal. Minha vida social era comprometida pelo medo de descobrirem meus segredos, afirma. J.T. conta que est h oito meses sem se cortar, mas ainda luta diariamente contra o desejo. Tenho crises em que passo algum objeto na minha pele, com fora.  como uma droga, compara.
     Presente ao longo da histria em formas variadas de autoflagelo, ato praticado inclusive pelos santos da Igreja Catlica, a automutilao  descrita na literatura psiquitrica desde 1938, mas s veio a ser objeto de estudos e pesquisas a partir dos anos 1970. No h dados precisos sobre a quantidade de jovens afetados, at porque muitos jamais so descobertos. A maioria das adolescentes que se cortam deixa de faz-lo  medida que amadurece. No mais vasto estudo sobre o assunto, realizado em conjunto pelo Kings College de Londres e pela Universidade de Melbourne, na Austrlia, 1802 pessoas foram acompanhadas durante dezesseis anos, da adolescncia  fase adulta. Delas, 8% disseram ter se mutilado de alguma forma durante a adolescncia (a bulimia atinge apenas 1%); aos 29 anos, menos de 1% mantinha o comportamento.  normal que, com o tempo, os adolescentes aprendam a lidar com situaes adversas atravs de outros mecanismos , diz a psicloga Anna Karla. O que, alerta, no dispensa a necessidade de os pais estarem atentos e, percebendo o distrbio, buscarem ajuda: Com sesses de terapia e medicao, a pessoa que se automutila ter mais ferramentas para controlar sua impulsividade e encontrar alternativas.

ELAS SE CORTARAM
Famosas que vieram a pblico revelar que se automutilaram.

DEMI LOVATO, 20 anos
Em entrevista no ano passado, aps um perodo em clnica de reabilitao, contou que aos 11 anos comeou a vomitar para perder peso e a se cortar  Era uma maneira de expressar no meu corpo a minha vergonha.

MEGAN FOX, 26 anos
Considera a automutilao na adolescncia uma fase na sua vida: Meninas passam por vrias fases em que se sentem infelizes e esto sujeitas a todo tipo de coisa, seja algum distrbio alimentar, seja uma tentativa de se cortar.

ANGELINA JOLIE, 37 anos
Conta que se cortou at os 16 anos  Se a garota  jovem,  maluca, est na cama, tem facas  mo, alguma besteira vai acontecer. Uma vez, aos 13, quase cortou a jugular: No  que eu achasse bacana. Entendo agora que era um pedido de ajuda.

CHRISTINA RICCI, 32 anos
Em vrias ocasies, comentou que costumava se queimar com cigarro e tem vrias cicatrizes nos braos para comprovar. Quando estava nervosa, fazia isso para me acalmar.  um jeito horrvel de se sentir melhor.

COM REPORTAGEM DE ALESSANDRA MEDINA


5. VIDA DIGITAL  POPULARIDADE.COM
Klout Score, o sistema que pretende calcular o prestgio on-line de todos os que usam a internet, j montou um ranking com 100 milhes de pessoas.
FILIPE VILICIC, DE SO FRANCISCO

     Qual  seu Klout Score? A pergunta, enigmtica para no iniciados, agora  corriqueira nos corredores virtuais da web. Criado em 2008, o Klout Score ambiciona medir a popularidade de todo mundo que trafega na internet. Ou seja, de um tero da populao mundial. Popularidade, nesse contexto, significa a influncia de uma pessoa no meio virtual. Essa medida  obtida atravs de uma equao complexa, que leva em conta centenas de parmetros. Os de maior peso no clculo so a presena em redes sociais, como o Facebook, e citaes no universo virtual, principalmente na enciclopdia Wikipedia e no YouTube. O resultado do clculo  expresso numa escala que vai de 1 a 100. Quanto mais alto o nmero, maior a fama on-line. Algumas informaes so exibidas no site da Klout  o perfil da pessoa avaliada, sua pontuao e caractersticas de seu comportamento  e podem ser consultadas livremente. Anlises mais elaboradas so vendidas a empresas que as usam para definir estratgias de divulgao de produtos.  desse comrcio que sai o lucro do site. Hoje, 8000 empresas americanas se valem dos dados para caar clientes. Hotis de Las Vegas oferecem descontos e call centers atendem melhor aqueles com alta popularidade.
     A pontuao, ou simplesmente Klout Score, virou um valor para uso pessoal. Uma posio elevada no ranking ajuda na disputa por um emprego na indstria digital. O objetivo de Joe Fernandez, o fundador do site, que j atraiu 30 milhes de dlares em investimentos,  medir a fama on-line de todo mundo. Avaliado apenas pelo critrio ambio, o projeto  comparvel ao de Larry Page e Sergey Brin, criadores do Google, que visam a armazenar toda a informao existente no planeta. Quando o Google surgiu, riam de sua aspirao. O site mostrou que no estava para brincadeira e j atingiu, em certa medida, o objetivo de reunir todo o conhecimento disponvel. Quero produzir impacto semelhante, mas na rea de relacionamentos na web, disse Joe Fernandez a VEJA.
     Formado em cincia da computao, Fernandez  uma figura de sorriso tmido, que fala com voz baixa, distante do tipo que se imaginaria disposto a julgar a popularidade alheia. A ideia do site surgiu em 2007, quando ele tinha 30 anos e vivia seu perodo menos socivel. Devido a uma cirurgia, Fernandez no pde abrir a boca por trs meses. Restrito  comunicao via web, notei quanto uma mensagem no Facebook afeta meus amigos. Uma crtica positiva a um filme pode incentivar centenas de pessoas a ir ao cinema, diz ele. O Klout foi desenvolvido nesse perodo em que Fernandez no podia falar e seu contato com as outras pessoas era inteiramente virtual.
     Essa no  a primeira tentativa de estabelecer um ranking confivel de popularidade na rede. O Klout se destaca pela sofisticao de sua metodologia. Os concorrentes usam como base dados fceis de obter, como o nmero de seguidores de algum no Twitter. O algoritmo (conjunto de contas e processos por trs dos softwares) do Klout trabalha com 400 variveis. Entram na conta a quantidade de vezes que um nome  citado em redes sociais, a pontuao no Klout dos amigos e tambm a profisso de cada um. Ser o presidente de uma grande empresa vale alguns pontos. Ser amigo de um presidente de uma grande empresa tambm faz subir a pontuao. A web d a indita oportunidade de medir a real influncia que algum tem sobre outras pessoas. E de deixar mais transparente como se usa esse tipo de poder, diz Fernandez. Mais de 100 milhes de pessoas j foram includas no ranking. At o incio de agosto, o cantor Justin Bieber era o nico com pontuao mxima, de 100 pontos. A fama se devia, sobretudo, ao sucesso de seus clipes no YouTube. O da msica Baby foi visto 800 milhes de vezes, um recorde absoluto. Muita gente desconfiou que no podia estar certo um sistema que atribua a um cantor adolescente influncia maior que a do presidente americano Barack Obama. Fernandez aceitou a crtica e promoveu, h trs semanas, uma reforma no clculo, com a incluso de outras variveis. O principal acrscimo foi a anlise da relevncia da pgina do avaliado na Wikipedia. O resultado, to previsvel que d para desconfiar, foi a ascenso de Obama ao topo do ranking, com 99 pontos. 

BARACK OBAMA
Presidente dos Estados Unidos
O que contribui para aumentar sua pontuao
 A citao de seu nome por autores e sites de grande prestgio
 19 milhes de seguidores no Twitter, que retransmitem suas mensagens 350.000 vezes por ms
K 99 pontos
1 lugar no ranking

PAULO COELHO
Escritor
O que contribui para aumentar sua pontuao
 5 milhes de fs no Twitter e 9 milhes no Facebook
  citado diariamente por meio milho de pessoas no Facebook
K 90 pontos

MICHEL TEL
Cantor sertanejo
O que contribui para aumentar sua pontuao
 O clipe de Ai, Se Eu Te Pego  o oitavo mais acessado do YouTube, com meio bilho de visualizaes
 2 milhes de seguidores no Twitter
K 82 PONTOS

JENNIFER LOPEZ
Cantora e atriz
O que contribui para aumentar sua pontuao
 25 milhes de pessoas acompanham sua rotina em redes sociais
 Seu clipe On the Floor foi visto 600 milhes de vezes
K 90 pontos

JUSTIN BIEBER
Cantor
O que contribui para aumentar sua pontuao
 O vdeo da msica Baby foi visto 800 milhes de vezes, o recorde da internet
 Seu nome  mencionado 10 milhes de vezes por msno Twitter


6. MEMRIA  O PRIMEIRO A PISAR NA LUA
Morre Neil Armstrong, o comandante da Apollo 11, a misso que levou o homem ao nosso satlite. Astronauta de coragem lendria, ele nunca quis ser chamado de heri.
OKKY DE SOUZA

     H 43 anos, 600 milhes de pessoas assistiram eletrizadas, pela TV, ao desenrolar da maior aventura j empreendida pela humanidade. O astronauta Neil Armstrong, comandante da nave Apollo 11, desceu nove degraus e se tornou o primeiro homem a pisar na Lua. Na ocasio, diante da cmera que filmava o momento histrico, disse a frase que se tornaria a mais conhecida das viagens espaciais: Este  um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade. Alm de um feito cientfico espetacular, o pouso na Lua teve uma srie de significados reais e simblicos. Concretizava-se uma das fantasias mais recorrentes e arrojadas da fico cientfica. Os Estados Unidos davam o golpe de misericrdia na acirrada corrida espacial com a Unio Sovitica, que tinha como cenrio a Guerra Fria. As pegadas no solo lunar de Armstrong e, pouco depois, de seu colega de faanha Buzz Aldrin pareciam anunciar que, dali para a frente, o homem seria capaz de qualquer conquista que sua imaginao pudesse conceber. Depois dos dois, outros dez astronautas americanos andaram em nosso satlite.
     Neil Armstrong morreu no ltimo sbado, dia 25, de complicaes cardiovasculares, aos 82 anos. O presidente americano Barack Obama emitiu um comunicado colocando-o entre os grandes heris da histria dos Estados Unidos. Armstrong morava em uma casa no subrbio de Cincinnati, no estado de Ohio, e tinha como passatempo pilotar planadores, atividade que classificava como o mais perto que um homem pode chegar dos pssaros. Aprendeu a pilotar aos 15 anos. A paixo por voar o levou  formao como engenheiro aeroespacial e a uma bem-sucedida carreira de piloto militar. Seus colegas admiravam seu sangue-frio mesmo diante das situaes mais arriscadas e o apelidaram de Comandante de Gelo. Participou de 78 misses na Guerra da Coreia. Numa delas seu avio foi atingido pela artilharia inimiga, mas ele conseguiu pous-lo. Tambm atuou como piloto de testes e, certa vez, teve de se ejetar do assento de uma aeronave sobre a qual perdeu o controle  aps o incidente, o comandante de gelo foi para o escritrio e continuou a trabalhar normalmente.
     Depois de entrar na Nasa, a agncia espacial americana, Armstrong tomou seu primeiro grande susto em 1966, ao acoplar a nave Gemini 8 a uma nave de servio. Com a acoplagem, a Gemini comeou a girar velozmente em torno do seu eixo. No prprio pouso na Lua Armstrong deu uma amostra eloquente de suas habilidades. O local previamente escolhido para a descida do mdulo lunar se revelou cheio de pedras grandes. Ele tirou o controle da nave do computador e, manualmente, procurou uma rea mais apropriada para o pouso. Quando a encontrou, havia combustvel na nave para apenas mais 25 segundos de voo.
     Quando Armstrong, Aldrin e Michael Collins  o astronauta que permaneceu a bordo da Apollo 11  retornaram  Terra, foram recebidos com homenagens e honrarias de propores nunca vistas antes. Numa turn de celebrao, percorreram 23 pases em 45 dias. Armstrong, no papel de comandante da misso, era a estrela principal da caravana, mas ele logo deixou claro que recusava o papel de heri. No se conformava em levar as honras pelo pouso na Lua, considerando que o sucesso da manobra fora resultado do trabalho de milhares de engenheiros, matemticos e tcnicos que trabalharam no projeto Apollo. Tinha razo. Em seu auge, nos anos 60, a Nasa chegou a empregar 400.000 pessoas e consumir 4,4% do oramento do governo americano. Segundo seu bigrafo James R. Hansen, historiador especializado em aviao e autor de First Man: The Life of Neil A. Armstrong (Primeiro Homem: a Vidade Neil Armstrong), essa recusa do astronauta em posar de heri no era falsa modstia. Disse Hansen a VEJA na semana passada: Sua personalidade no se alterou depois da misso Apollo 11. Ele sempre foi tmido, contido, e a luz dos holofotes e sua transformao em um cone global exacerbaram esses aspectos de sua personalidade. Sua inteno no era virar celebridade, apenas fazer seu trabalho. Armstrong voltou aos holofotes h dois anos, quando, junto com um grupo de astronautas do Projeto Apollo, veio a pblico para criticar a deciso do presidente Barack Obama de cancelar o projeto da Nasa de novos voos tripulados  Lua. Depois, foi ao Senado para se dizer ctico diante da nova poltica do governo de entregar  iniciativa privada os voos espaciais na rbita da Terra. Com sua morte, essa discusso perde um protagonista de peso.
COM REPORTAGEM DE GUSTAVO SIMON


7. PERFIL  O SENHOR DAS SOMBRAS
E dos batons, das escovas e dos pincis. O imigrante japons Hirofumi Ikesaki comeou trabalhando na lavoura e hoje  dono de um dos maiores imprios de cosmticos do Brasil.
CAROLINA RANGEL

     Hirofumi Ikesaki, como a maioria dos homens, no sabe a diferena entre um rmel e um delineador. Mesmo assim, todos os dias, 10.000 mulheres, que sabem muito bem a resposta para a questo, se acotovelam diante de suas lojas para gastar dinheiro com alguns dos milhares de itens de beleza nas prateleiras. Muito antes de a rede francesa de cosmticos Sephora chegar ao Brasil, os supermercados de beleza desse imigrante japons j tinham fila na porta. Sefo o qu?, Ikesaki pergunta, franzindo a testa. Ele garante que nunca ouviu falar da concorrente rica.
     Como a maioria dos imigrantes japoneses, Ikesaki chegou ao Brasil para trabalhar na lavoura. E, como muitos deles, partiu em seguida para o negcio de tinturaria. Primeiro, como empregado, e, depois, como dono de uma, junto com os irmos. Mas o avano dos tecidos sintticos  e a promessa de que eles faziam gastar menos em lavanderia  fez os irmos temerem pela clientela. Notando a proliferao dos sales de beleza na So Paulo dos anos 60, decidiram mudar de ramo.
     A primeira loja de cosmticos virou, em sete anos, um shopping instalado num sobrado no bairro da Liberdade. Nos anos 80, Ikesaki comprou a parte dos irmos, apostou em equipamentos para sales de beleza e decidiu que teria os preos mais baixos do mercado. Quando via produtos mais baratos na concorrncia, ligava para fornecedores para reclamar e pedir desconto. Hoje, j tem mais quatro megalojas  a ltima foi inaugurada na semana passada, em Santo Andr, na Grande So Paulo.
     Mas a histria do empresrio no foi sempre suave como um comercial de hidratante. Ele chegou ao Brasil em 1932, com o pai e quatro irmos  rfos de me, que morrera poucos meses antes. A famlia se assentou em Bastos, no interior paulista. Ikesaki, que nunca gostou de trabalhar na roa, insistia com o pai para que se mudassem para So Paulo. Quando o patriarca tomou essa deciso, porm, ela no teve relao com o desejo do filho, mas com uma quase tragdia que se abateu sobre a famlia.
     No fim da II Guerra Mundial, a comunidade japonesa no Brasil se dividiu numa batalha fratricida: de um lado, ficaram os que se resignaram com a derrota do Japo e, de outro, os que achavam que ela no passava de uma mentira dos inimigos. O racha provocou uma dezena de assassinatos e foi narrado no livro Coraes Sujos, agora um filme em cartaz nos cinemas. Ikesaki escapou de ser um personagem da histria. Um dia, fui abordado por um menino armado com uma bandeira do Japo enrolada na barriga. Ele disse que eu deveria honrar o meu pas e matar os traidores que diziam que o Japo havia perdido a guerra. Eu me neguei a participar e sabia que as coisas iriam ficar complicadas. A famlia Ikesaki no teve outra escolha: colocou os pertences num carreto e seguiu para So Paulo.
     Hoje, Ikesaki est rico, muito rico, embora no goste de falar quanto. Diz que passou h mais de dez anos o controle do grupo para os seus cinco filhos, mas, na prtica, nunca se afastou do negcio. Ainda almoa com funcionrios em um restaurante japons que vende comida por quilo na Liberdade. Gosto de comida de pobre, brinca. Conta com orgulho que fez faculdade ao mesmo tempo que os filhos  formou-se em direito em 1983 pelas Faculdades Integradas Guarulhos. S se incomoda quando lhe perguntam sobre o seu hobby quase secreto: a restaurao e ampliao de um castelo em Atibaia, no interior de So Paulo.  bobagem, responde, quando questionado sobre o tamanho do empreendimento. Logo depois, no se aguenta e diz com orgulho: Vai ter entre 300 e 400 apartamentos com banheiro e cozinha. O plano era usar o castelo para abrigar a delegao do Japo na Copa de 2014, mas agora ele acha que a obra no ficar pronta a tempo.  muito dinheiro que vai, diz. Pela aglomerao de mulheres na frente das suas lojas, no entanto, vai demorar muito para o cofrinho do empresrio esvaziar. Para quem, ao contrrio delas, ainda no sabe, rmel se passa nos clios e delineador, no contorno dos olhos. E os dois, assim como Ikesaki e seu negcio, servem para deixar todas mais bonitas.


8. DEMOGRAFIA  QUERIDO, VAMOS TER MAIS UM?
Um grupo crescente de brasileiras de classe mdia e mdia alta tem optado pelo terceiro filho, mesmo que para cuidar da prole seja preciso adiar a carreira ou largar a profisso.
SIMONE COSTA

     A fisioterapeuta mineira Iwana Sansoni, de 36 anos, abandonou a carreira depois de dar  luz a terceira filha. A publicitria paulista Larissa Mrozowski, de 35, tomou a mesma deciso  deixou o emprego para cuidar dos trs rebentos. Amanda Machado Lins, de 31, pernambucana, funcionria pblica, desdobra-se para dar conta do trabalho e da prole  ela tambm  me de trs. Nas grandes capitais do pas, um grupo crescente de mulheres de classe mdia e mdia alta como Iwana, Larissa e Amanda, que trabalham fora ou no, tem optado por gerar trs filhos, ou mais. Celebridades que costumam aparecer em jornais e revistas tambm comeam a aumentar a famlia. A apresentadora Anglica e a modelo Camila Alves esto grvidas do terceiro. A atriz Cludia Abreu, a cantora Chayene da novela Cheias de Charme, deu  luz ao quarto, h onze meses. Pelos clculos da consultoria Cognatis, especializada em demografia, ao menos 219.000 casais das classes A e B, com renda mensal acima de 7000 reais, decidiram ter uma trinca dentro de casa recentemente.
     Optar pelo terceiro filho, hoje,  trafegar na contramo de uma tendncia nacional  e justamente por isso a volta das famlias grandes, mesmo que apenas entre uma parcela pequena e abastada da populao, chama tanto a ateno dos demgrafos e estudiosos do comportamento. A taxa de fecundidade do pas est em queda vertiginosa desde a dcada de 60, quando se intensificou a migrao do campo para a cidade, houve melhoras nas condies sanitrias e as mulheres deixaram o lar para invadir o mercado de trabalho. A mdia de filhos por mulher passou de 6,3 na ocasio para 1,9 atualmente, menos que o necessrio para a reposio populacional. O filho nico, visto h trs dcadas como anomalia, tornou-se figura comum nos anos 90  e est presente em 20% dos lares. O total de brasileiras que decidiram aumentar a famlia ainda no aparece nas estatsticas, mas  um grupo em evidente crescimento, afirma o demgrafo Jos Eustquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Cincias Estatsticas do IBGE.
      fcil entender por que tantos casais querem mais de um filho. Como diz o antigo chavo, um  pouco. Muita gente teme que o filho nico vire um monstrinho mimado, que no sabe dividir nada com ningum, ou um adulto com pouca tolerncia a frustraes. Mas, se dois  bom (ter um menino e uma menina ainda  o sonho de muitos pais e mes), por que trs? Ou quatro? Ter filhos  e quem os tem bem sabe   uma das experincias mais gratificantes na vida de uma pessoa. No entanto, gerar uma criana e cri-la com esmero implica sacrifcios, preocupaes, noites maldormidas e gastos, muitos gastos. Escola, ingls, plano de sade e l se vai quase 1 milho de reais na criao de um filho, do nascimento aos 23 anos, segundo levantamento do pesquisador Adriano Maluf Amui, do instituto Nacional de Vendas e Trade Marketing (Invent).
     So vrias as explicaes para o inchao das famlias, mas a principal, dizem os especialistas,  uma mudana recente, e radical, no comportamento feminino. As mulheres que sonham em se tornar me no esto mais dispostas a abrir mo da maternidade para provar que podem competir em p de igualdade com os homens, afirma a demgrafa Maria Coleta Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Esse fenmeno no  exclusividade brasileira e j foi observado em muitos pases, especialmente nos mais desenvolvidos. A antroploga Carla Barros, da Universidade Federal Fluminense, concorda: Nos anos 80 e 90, que se seguiram  emancipao feminina, havia uma presso para que a mulher estudasse e fosse bem-sucedida na profisso, principalmente nas classes mais altas. Ser s dona de casa desqualificava a mulher. As que queriam filhos optavam por ter um, no mximo dois, para no prejudicar o trabalho. Hoje, a mulher conquistou o direito de escolher o que fazer. Dados do IBGE corroboram a tese. Na ltima dcada, cresceu 26% o nmero de brasileiras mais escolarizadas, com renda acima de 8000 reais, que largaram o emprego para ser mes e nada mais, com muito orgulho.
     Aos olhos da filosofia, a opo por uma prole numerosa  reflexo de uma mudana profunda no papel dos filhos e da famlia na sociedade contempornea. Existe hoje uma tendncia de enfrentar as dificuldades do mundo a partir de escolhas privadas. Se o mundo est um caos, vou garantir minha tbua de salvao, que  uma famlia que vai viver comigo para encarar essa situao, considera o filsofo Luiz Felipe Pond. No livro Famlias, Amo Vocs, o filsofo francs Luc Ferry defende a ideia de que ter filhos deixou de ser uma obrigao social para se tornar uma forma de alcanar a plenitude, ou seja, os pais, hoje, precisam dos filhos para justificar sua existncia. Escreve Ferry: Os homens morriam por Deus, pela ptria e pelas revolues. Essas instituies perderam a importncia, e a famlia emergiu como a nova entidade sagrada do mundo atual. Os filhos so a nica razo pela qual vale a pena viver e morrer nos dias de hoje.
     A melhora na economia tambm explica o retorno das famlias maiores. O Brasil entrou em um ciclo de prosperidade em 2004. Virado o captulo da estabilizao monetria, a inflao permaneceu estvel e o real se valorizou, o que encorajou alguns casais a ter mais filhos. Os Estados Unidos so um exemplo de pas onde a taxa de fecundidade acompanha o ritmo da economia. Em 1910, cada americana tinha em mdia 3,4 filhos. O nmero desabou para 2 na Grande Depresso, nos anos 30. Subiu na dcada de 50, chegando a 3,6. Caiu para menos de 2 durante a crise energtica dos anos 70. Com a recesso dos ltimos anos, o ndice voltou a cair.
     As novas famlias de trs ou mais filhos no vo alterar o cenrio demogrfico atual. A tendncia de queda na taxa de fecundidade no Brasil deve se manter nas prximas dcadas. Pelas estimativas do IBGE, as brasileiras tero 1,5 filho em 2030, o mesmo que as europeias. A fecundidade baixa, na Europa,  motivo de preocupao. O crescimento populacional do continente  o menor do mundo, o que acarreta um aumento expressivo no total de idosos e a diminuio da populao em idade ativa. So poucos jovens para trabalhar e muitos velhos para ser sustentados. A partir de 2040, o Brasil comear a sentir os efeitos nocivos da queda na fecundidade. Quem sabe, at l, mais mulheres no se lancem na agradvel (e custosa) aventura de gerar uma prole numerosa. 

DOIS  BOM, TRS  MELHOR 
Quando anunciei a terceira gravidez, meus amigos se assustaram. No incio, eu mesma me senti um peixe fora dgua, mas vi que h outras mulheres corajosas como eu. Chega a ser enlouquecedor quando os trs choram ao mesmo tempo. Mesmo assim, trs  bem mais divertido do que dois. Larissa Mrozowski, publicitria, de 35 anos, com o marido, Andrei Croisfelt, 35, e os filhos Pedro, 6, Manuela, 3, e Joana, 2.

TRABALHO ADIADO
Minha av teve doze filhos, 39 netos e 42 bisnetos. A casa dela estava sempre cheia, e isso me inspirou. Decidi ficar em casa para cuidar das meninas. Sei que um dia posso voltar a trabalhar. Iwana Sansoni, fisioterapeuta, de 36 anos, com o marido, Andr Luiz Zeola, 38, e as filhas Isadora, 11, Iasmim, 9, e Ana Clara, 2.

A ESPERA DO QUARTO 
Planejei um intervalo maior entre as gestaes para no largar o emprego. Eu e meu marido nos desdobramos para lev-los  escola, ao ingls, ao esporte e almoar com eles diariamente. Quero ter outro. Amanda Machado Lins, funcionria pblica, de 31 anos, com o marido, Luiz Humberto, 36, e os filhos Luiz Alberto, 11, Eduardo Henrique, 6, e Joo Mateus, 2.

Porque 1 +2 no  3
No basta multiplicar o custo de um filho por trs para calcular quanto um casal gastar para criar a trinca. Os pais gastam em mdia 10% menos com o segundo filho e 15,5% menos com o terceiro em relao ao primeiro.

As despesas com um, dois e trs filhos, do zero aos 23 anos, em reais 
(O clculo foi feito com base nos gastos de famlias com renda mensal entre 6000 e 25.000 reais)
1 filho: 948.000
2 filhos: 1,8 milho
3 filhos: 2,6 milhes

1 filho
BAB: 151.000
EDUCAO (No inclui material didtico, cursos extracurriculares e transporte): 206.000
PLANO DE SADE: 58.000
ROUPAS: 45.000

2 filhos
BAB: 238.000  57% mais que um filho
EDUCAO (No inclui material didtico, cursos extracurriculares e transporte): 412.000  100% mais que um filho
PLANO DE SADE: 116.000  100% mais que um filho
ROUPAS: 88.000  96% mais que um filho

3 filhos
BAB: 310.000  30% mais que dois filho
EDUCAO (No inclui material didtico, cursos extracurriculares e transporte): 597.000  45% mais que dois filho
PLANO DE SADE: 161.000  40% mais que dois filho
ROUPAS: 130.000  48% mais que dois filho

 Bab - Com o segundo filho a bab fica mais tempo na casa. A bab que cuida de dois cuida de trs.
 Educao - A maioria das escolas oferece desconto de 15% para o terceiro filho.
 Plano de sade - Em mdia, h desconto de 20% para o terceiro dependente
 Roupas  O segundo filho herda as roupas do primeiro, e o terceiro, do segundo

Fonte: Instituto Nacional de Vendas e Trade Marketsng (Inverti)


9. ESPORTE  IGUAIS AT NOS PECADOS
A Paralimpada  um belo espetculo de superao  mas os prprios atletas deficientes rejeitam o paternalismo, e gostam de mostrar que se comportam como os aptos, mesmo nas transgresses s regras.
ALEXANDRE SALVADOR

     Haver cenas de muita emoo, a beleza do esforo de pessoas fisicamente prejudicadas que do a vida por uma vitria, por uma cesta, pelo gol preciso, pela volta mais rpida na pista. Uns estaro em cadeira de rodas, outros ancorados em prteses nas duas pernas. Atletas sem viso alguma buscaro a bola atrados pelo rudo de guizos, nadadores se movimentaro na gua sabe-se l como. A Paralimpada de Londres, que comeou na quarta-feira da semana passada e vai at o dia 9, ser acompanhada pela televiso por cerca de 4 bilhes de pessoas (alm de 2,5 milhes de espectadores nas arenas de competio) vidas por uma lgrima. Mais que um evento esportivo, a Paralimpada  um festival de coragem e brio. Criada em 1948 na Inglaterra como uma competio organizada para recuperar a motivao de veteranos de guerra, transformou-se num torneio imenso, intenso e cada vez mais admirado. Em 2012 participa um nmero recorde de 4260 atletas, de 166 pases, divididos em 21 modalidades. O Brasil tem em Londres 182 atletas e um anseio plenamente alcanvel: consolidar-se entre as potncias do esporte mundial. O Comit Paralmpico Brasileiro espera sair de Londres na stima posio. No Rio de Janeiro, em 2016, a expectativa  de um quinto lugar. H um ms, na Olimpada, o pas terminou na 22 posio.
     O lado bonito da Paralimpada  inquestionvel, e deve ser louvado. O que aparece menos  um aspecto nada romntico e que em tudo aproxima os atletas deficientes dos aptos: a vontade de vencer a qualquer custo, o que pressupe uma atvica mania de burlar, a busca pelo doping que no se detecta e uma coleo de truques pouco edificantes. Os atletas paralmpicos se consideram esportistas como quaisquer outros, diz Andrew Parsons, presidente do Comit Paralmpico Brasileiro. E, como o esporte escancara o que h de melhor e o que h de pior no ser humano,  inevitvel que assim seja tambm entre para-atletas. Cabem, nessa nsia competitiva, trapaas como a de esportistas que simulam uma deficincia mais severa em busca de uma classificao mais vantajosa. Ficou tristemente conhecida a farsa urdida em 2000, nos Jogos de Sydney, pela seleo espanhola de basquete de atletas com deficincia intelectual.
     Medalhista de ouro, a equipe ibrica competiu com pelo menos dez jogadores que no tinham nenhuma deficincia. Eles nem sequer fizeram o teste que os credenciaria a participar de uma Paralimpada. Entre os supostos para-atletas estavam um engenheiro, um advogado e um jornalista. Esse ltimo, Carlos Ribagorda, disse ter se infiltrado na equipe justamente para revelar a tramoia, o que de fato aconteceu alguns meses depois. Eles nos diziam para agirmos de maneira estpida, para no levantar suspeitas, disse Ribagorda. O constrangimento causado pelo esquema orquestrado pelos espanhis, que obviamente tiveram de devolver as medalhas, fez com que o Comit Paralmpico Internacional tomasse a drstica deciso de excluir todos os atletas com deficincia intelectual das edies subsequentes. Doze anos depois do vexame de Sydney, o comit reintegrou esses esportistas em algumas modalidades dos Jogos de Londres: atletismo, natao e tnis de mesa  o basquete continua banido. Mas a incluso s foi possvel depois de se criar uma nova metodologia de avaliao. O novo sistema mede como a deficincia intelectual de cada atleta influencia na chamada inteligncia esportiva, disse a VEJA o belga Peter Van de Vliet, diretor mdico e cientfico do Comit Paralmpico internacional. So aferidos valores de tempo de reao, capacidade de memorizao, coordenao, e a classificao  feita de acordo com os parmetros de cada modalidade. Alm disso, os critrios de diagnstico ficaram mais rgidos e os testes agora so realizados por uma junta mdica independente. Desde a criao do novo sistema, foram feitas 1500 avaliaes, e apenas 120 atletas com deficincia intelectual devidamente comprovada disputaro os Jogos de 2012, entre eles dois brasileiros.
     Aparentemente resolvida a possibilidade de uma contrafao como a dos espanhis h doze anos, resta espao para a violncia de algumas modalidades e o doping,  natural, para pr a turma heroica em p de igualdade com os ditos normais. O rgbi de cadeira de rodas  que j foi chamado de murderball (bola assassina), ttulo de um documentrio para o cinema lanado em 2005   absurdamente agressivo. Nessa disputa, quatro jogadores de cada lado emulam a intensa disputa do rgbi tradicional, com choques violentos entre as cadeiras de rodas que lembram as cenas do filme Mad Max. A maioria dos atletas do rgbi  de tetraplgicos, vtimas de acidentes, mas que no querem ser vistos com olhar de pena, e sim com igualdade  no caso deles, a agressividade  uma forma de responder ao paternalismo do qual desejam se apartar.
     Nas edies de 2000 e 2004, a incidncia do uso de substncias ilegais foi proporcionalmente maior na Paralimpada do que na Olimpada.  o suficiente para demonstrar a crueza dos fatos? No. H um tipo de enganao que os aproxima das experincias feitas com nadadoras da Alemanha Oriental no incio dos anos 80, que engravidavam de modo a multiplicar a produo de hemoglobina e abortavam logo depois da competio, numa modalidade quase inacreditvel de doping biolgico. Atletas tetraplgicos turbinam a presso arterial e a frequncia cardaca  o que os torna mais vigorosos  induzidos por estmulos de dor. H relatos de atletas que quebram pequenos ossos do corpo. como os dos ps, que se perfuram com tachinhas ou introduzem cateteres que enchem a bexiga at ela quase estourar. A mensagem de desconforto  enviada pelo nervo perifrico e interpretada pelo crebro mas no volta para o membro cutucado. Esse impulso  desviado para os msculos do corao, o que gera hipertenso. O aumento na presso arterial pode ajudar um atleta a ter um incremento de 10% em seu desempenho, disse Van de Vliet, do Comit Paralmpico Internacional. A prtica  proibida desde 1994, mas continua a ser adotada. Nos Jogos de Pequim, 37 testes foram feitos em atletas supostamente turbinados, mas nada ficou provado.
     Os atletas paraolmpicos evidentemente rejeitam todo tipo de contrafao, mas esse comportamento torto, humano embora desleal, os auxilia em um dos seus grandes mantras: chamar ateno pelos resultados, e no apenas pela dedicao extraordinria de quem j passou por tudo at chegar l.  Paralmpicos querem ser vistos como iguais, sem compaixo.  Pelo menos at que as duas olimpadas se unam (h quem defenda esse movimento), ser complicado alcanar esse objetivo igualitrio.  Por ora, o ponto comum entre a Olimpada e a Paralimpada de Londres so o sul-africano Oscar Pistorius, velocista especialista nos 400 metros, amputado das duas pernas, e a mesa-tenista polonesa Natalia Partyka, sem uma mo.  Ambos disputaro os dois torneios.  Para Pistorius, a Paralimpada  uma chance de mudar a percepo de muitas pessoas no apenas sobre o esporte paraolmpico, mas sobre as pessoas que vivem com uma deficincia.  Muito remotamente, esse segundo passo se dar para alm da exploso imediata de sentimentos diante de tanto empenho. Em uma enquete feita em dezembro do ano passado com um grupo de britnicos portadores de deficincia, 42% dos entrevistados no acreditavam que a Paralimpada ter um impacto positivo na opinio pblica sobre deficincia.

COMO PARAOLMPICO VIROU PARALMPICO
O Comit Paralmpico Brasileiro adotou essa grafia em novembro passado, ao divulgar a logomarca do Jogos do Rio, em 2016. Cedia assim  presso do Comit Paralmpico Internacional, que desde sua fundao, em 1989, dispensa a letra o. Morfologicamente, faz pouco sentido: a contrao natural em nosso idioma seria parolmpico.  A palavra que consta dos dicionrios brasileiros paraolmpico, preserva tanto a integridade do prefixo para (de paraplegia, embora os dirigentes enfatizem hoje o sentido de paralelismo) quanto a do adjetivo olmpico. Apesar de entidades reguladoras terem escasso poder sobre a lngua,  provvel que a estranha grafia se imponha num campo que depende pesadamente da esfera oficial.
SRGIO RODRIGUES

